Mensagem do presidente
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O objectivo central do Mozambique Parks é contribuir para a conservação da natureza e biodiversidade em Moçambique através de programas, projectos e actividades de natureza multidisciplinar, interdisciplinar e multissectorial dirigidos à investigação, documentação, salvaguarda, recuperação, valorização e dinamização das áreas de conservação e das paisagens e sítios detentores de importantes elementos naturais de especial valor e significado, incluindo histórico, cultural, religioso, estético e geológico. Este objectivo central resume assim a missão da instituição. A motivação e impulso de tal missão é iluminado pela visão de um mundo rico em biodiversidade, com ecossistemas saudáveis, resilientes e sustentáveis para benefício do homem e do mundo natural, das gerações actuais e futuras. Porém, torna-se necessário clarificar a essência do nosso pensamento e acção, e saber transmiti-la de forma objectiva e compreensível a todos. É neste propósito que gostaria que as palavras seguintes pudessem a isso contribuir e, se possível, incentivar aqueles que queiram contribuir com o esforço do seu trabalho, físico ou intelectual, e juntarem-se a nós.
O estado do mundo e o actual e acelerado processo de globalização e degradação ambiental tem colocado a humanidade perante o enorme desafio e responsabilidade em implementar a nível global a filosofia do desenvolvimento sustentável. Ademais, o processo em curso e já observável das alterações climáticas – que exacerbam e somam à lista de perigos e desafios que a humanidade enfrenta, e com consequências ainda não totalmente visionáveis e apreciadas por grande parte da população mundial – é um dos maiores desafios e adversidades do nosso tempo e cujos impactos negativos comprometem seriamente a capacidade dos vários países em implementar e alcançar os objectivos do desenvolvimento sustentável.
De facto, a humanidade encontra-se pela primeira vez no curso da história numa situação sem par e face a um ponto crítico de viragem civilizacional: o que está em causa é simplesmente a sobrevivência do homem enquanto espécie e neste planeta. Não há forma de contornar este assunto, de tentar desviar atenções e promover outros interesses, ou de desvirtuar a sua importância com menção a teorias sectoriais. Do que se trata é que a dimensão do problema é realmente global. Não estamos já perante casos isolados de relativa pequena dimensão do aqui e do agora, sem grandes, graves ou irreversíveis impactos.
As grandes ameaças mundiais podem resumir-se nas seguintes questões-tópico que se conjugam e reciprocamente se influenciam: (1) a questão demográfica; (2) a questão política; (3) a questão económica. Está em causa: o ainda incontrolado aumento populacional; o governo e organização da sociedade; os hábitos e padrões de consumo e os métodos e tecnologias de produção, transformação e comercialização dos recursos naturais que estão na base da alimentação, da energia e dos materiais de construção e utilização diversa. Só poderemos alcançar o equilíbrio e a sustentabilidade através dos primados da consolidação da paz mundial e do estabelecimento de princípios, valores e ideias que estabeleçam o valor da vida em todos os seus domínios e aspectos, unindo a humanidade num todo colectivo.
A vida na Terra desenrola-se num estreito envelope à sua superfície – a biosfera - onde se encontram todos os elementos naturais – físicos e químicos – que, a par da fonte de energia solar e dos princípios da termodinâmica, permite a existência de um complexo de estruturas moleculares em permanente criação, transformação, e destruição, numa aparente eterna mutação. Tais estruturas estão na base da existência dos organismos vivos e dos seus processos vitais: são as moléculas orgânicas. São os organismos vivos que produzem as moléculas orgânicas, a codificação da informação para a sua produção é conseguida com outras moléculas orgânicas neles existentes, e são as moléculas orgânicas que constituem os seres vivos. Dito doutro modo, é a vida que sustém a vida.
Ao longo da evolução da vida na Terra, os seres vivos desenvolveram processos de adaptação e especialização a determinadas condições geográficas, vindo a constituírem a enorme diversidade de ecossistemas, habitats e espécies existentes. A vida e a sustentabilidade da vida na Terra resulta da existência e interacção entre todos os seres vivos e seus ecossistemas. É o todo que mantém o todo através dos princípios da sustentabilidade: equilíbrio, regeneração, reutilização. Todos os seres vivos, dos microscópicos aos grandes mamíferos, são necessários. Os excrementos de uns são o alimento para outros. A perda de uma espécie é o princípio da ruptura nesse equilíbrio. A perda de um ecossistema é a perda da totalidade de espécies que nele sobrevivem. A perda de um ecossistema com origem na acção do homem é o início da disrupção do equilíbrio da biosfera e de toda a vida na Terra. Este processo de disrupção pode ser gradual, de pequena dimensão em cada passo e não visível imediatamente; mas é inexorável se não for compreendido e nada for alterado, e é uma questão de tempo até atingir proporções de tal forma grandes que não mais é possível o retorno ao equilíbrio anteriormente existente. Quando se atingir esse marco no tempo, a humanidade ficará face a um ponto crítico. Estamos rapidamente a atingir esse ponto crítico. Tudo ainda é possível de reverter, mas se nada for feito em contrário caminharemos para o abismo.
A humanidade ainda não encontrou a forma e o modo de organizar a sociedade mundial, fazendo que haja um equilíbrio que sustém o desenvolvimento civilizacional e a utilização racional e sustentável dos recursos naturais. Tal equilíbrio pode ser dito simplesmente com a expressão, que nos serve de lema, ‘viver em harmonia com a natureza’.
Hoje, sabemos que os esforços da conservação têm necessariamente de ter uma abrangência que impacte numa multitude de temas. Hoje, sabemos que a conservação da natureza está intimamente associada ao problema da paz. Sem paz não há estabilidade económica, não há justiça e coesão social, não há ordem nem equilíbrio, não há utilização racional e sustentável dos recursos naturais, haverá degradação e destruição do ambiente natural. Sem recursos naturais haverá luta pela sobrevivência, dessa luta resultará a guerra, dessa guerra resultará a degradação e destruição do ambiente natural. Sem ecossistemas sustentáveis, resilientes e saudáveis não haverá recursos naturais, não haverá paz. Todos estes aspectos estão interligados, todos se conjugam, todos reciprocamente se influenciam.
Moçambique é um vasto território dotado de uma grande e rica diversidade de recursos naturais, incluindo os paisagísticos e lugares de extraordinária beleza, as águas interiores conformadas por rios, lagos e lagoas, as riquezas do subsolo, a imensa linha de costa oceânica, os ecossistemas e habitats, incluindo os de montanha e ilhas, a biodiversidade e os recursos genéticos, e um sistema de extensas áreas de protecção ambiental visando a conservação da natureza selvagem, animal e vegetal. A Mozambique Parks institui-se no sentido de participar activamente no esforço da preservação deste maravilhoso património, na compreensão que os desafios globais devem ser tratados localmente. Em última análise, o que está em causa é salvaguardamos a biosfera, detentora da maior magia de todas, a vida, e zelarmos pelo nosso maravilhoso planeta, a nossa colectiva casa, a Terra.
A conservação da diversidade biológica é uma preocupação comum da humanidade, é parte integrante do processo de desenvolvimento, e nenhuma nação por si só conseguirá resolver os desafios globais da conservação. Só juntos o conseguiremos.
Muito obrigado.
Nuno Pinto Teixeira
